quarta-feira, 14 de abril de 2010

O visível e o invisível

Se há um outro, por definição não posso instalar-me nele, coincidir com ele, viver sua própria vida: vivo somente a minha. Se há um outro, ele nunca é para meus olhos um Para-Si, no sentido preciso e dado em que o sou para mim mesmo. Ainda que nossas relações me levem a concordar ou até a experimentar que também ele pensa, que também ele possui uma paisagem privada, não sou esse pensamento como sou o meu, não tenho essa paisagem privada como tenho a minha, o que digo a respeito é sempre derivado do que sei de mim por mim mesmo: admito que se habitasse esse corpo teria outra solidão comparável à que tenho e sempre defasada perspectivamente em relação a ela. Mas se o "se habitasse" não é uma hipótese, é uma ficção ou um mito. A vida do outro, tal como ele a vive, não é para mim que falo uma experiência eventual ou possível: é uma experiência proibida, um impossível e deve ser assim se verdadeiramente o outro é outro.

Maurice Merleau-Ponty. O visível e o invisível.

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